Ela tinha 8 anos e a rua era o único lugar que a esperava depois da escola

No Bairro Bela Vista, em Colatina, centenas de crianças cresceram sem ter para onde ir no contraturno. Até que, em 1995, alguém decidiu abrir uma porta.

São 12h. O sinal tocou. E como toda criança, aquelas do Bairro Bela Vista têm o direito de ter um lugar seguro, estimulante e acolhedor para estar depois da escola.

Esse direito, porém, nem sempre estava garantido. O contraturno era um tempo ocioso, não por escolha das famílias, mas pela ausência de estrutura no território, de espaços que combinassem proteção, convivência e desenvolvimento.

Em 1995, a Pastoral do Menor e a Cáritas Diocesana identificaram essa lacuna e fizeram o que organizações comprometidas com a dignidade humana fazem: construíram a resposta.

Um bairro que o próprio estado reconhece como vulnerável

O Bela Vista é um dos dois bairros de Colatina incluídos no Programa Ocupação Social do Governo do ES, política criada para os 26 territórios do estado com maior concentração de vulnerabilidade social. No bairro, famílias de baixa renda convivem com desemprego, trabalho informal e déficit de atividades para crianças e adolescentes no contraturno escolar.

Em todo o ES, o programa encontrou mais de 16 mil jovens fora da escola nessas áreas, a maioria com abandono entre 10 e 14 anos.0 e 14 anos. Até 2015, quase 50% das vítimas de homicídios no estado tinham entre 15 e 24 anos.

Esses não são apenas números. São histórias interrompidas. São sonhos que nunca chegaram a ser sonhados.

Vulnerabilidade não é fraqueza. É ausência de rede.

Uma criança em situação de vulnerabilidade não é uma criança com defeito. É uma criança sem rede de proteção, sem supervisão, sem acesso a atividades, exposta a riscos que deveriam estar longe dela.

A ciência é clara: ter onde ir depois da escola, encontrar adultos de referência e vínculos saudáveis muda o trajeto de uma vida. Reduz o abandono escolar. Fortalece a autoestima. Abre perspectivas de futuro que a violência e a pobreza tentariam fechar.

Oficina de Recreação e Esportes –

A porta que foi aberta — e nunca mais fechou

Em 1995, a violência urbana crescia, o tráfico se consolidava nas ruas do Bela Vista e os vínculos familiares se desfaziam sob o peso do desemprego. O ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, tinha apenas cinco anos de existência.

Foi nesse contexto que a Pastoral do Menor e a Cáritas Diocesana de Colatina identificaram a necessidade concreta: criar um espaço protetivo para quem mais precisava. Abriram uma porta. E disseram: aqui tem lugar para você.

1995 – Fundação do CACA — o Centro de Acolhida da Criança e do Adolescente nasce em articulação com a Pastoral do Menor e a Cáritas Diocesana, inicialmente atendendo adolescentes em conflito com a lei.

1997 – Reorientação estratégica — após diagnóstico, a Cáritas Diocesana de Colatina é fundada em 11 de abril, por Dom Geraldo Lyrio Rocha, e o serviço passa a focar na prevenção: proteção social básica, fortalecimento de vínculos e prevenção ao uso de drogas.

Hoje – Referência no território — o Centro atua no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) para crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, com oficinas, rodas de conversa, esporte, cultura e cidadania.

Trinta anos depois, essa porta ainda está aberta. E do outro lado dela, uma criança ainda chega todos os dias e encontra alguém esperando por ela.

“Cada criança que chega ao nosso Centro carrega uma história. Conheça nossa história e nos ajude a escrever mais um novo capítulo.”

/Aline Costa – Coordenadora de Projetos

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