39ª Romaria da Terra será realizada na terça de carnaval

Tendo como tema “Cuidar da Terra, casa comum”, a 39ª Romaria da Terra será realizada em São Gabriel, Rio Grande do Sul, na próxima terça-feira, dia 9 de fevereiro. A romaria consiste em um espaço de fé, reflexão, oração e de fortalecimento da opção preferencial pelos pobres e pelos que lutam por um pedaço de chão. “As Romarias da Terra, no Rio Grande do Sul, surgem exatamente da inspiração e do modo de viver dos nossos irmãos índios, primeiros habitantes deste chão. Por inspiração divina, a Igreja, com seus profetas, olha o mundo, a realidade, e se vê forçada a iniciar ações mais contundentes a fim de conscientizar as pessoas que perderam a memória das origens”, afirma o frei Wilson Dalagnol, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

“O Papa Francisco, com palavras e gestos, mostra-nos a necessidade urgente de a Igreja fazer a sua parte no ‘cuidado da casa comum’, convertendo-se para uma ecologia global e promovendo ‘mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas de poder’ “, enfatiza dom Gilio Felicio, bispo diocesano de Bagé. O encontro deste ano, realizado na terça de carnaval, é organizado pela Diocese de Bagé (que já recebeu outras cinco edições da atividade), CPT/RS, Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – Regional Sul e Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – Regional Sul 3 e conta com o apoio da Cáritas Diocesana de Bagé, do Fundo Estadual de Solidariedade, do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e da Ação Episcopal Adveniat, fundo católico da Alemanha que fomenta iniciativas voltadas para os pobres, oprimidos e minorias na América Latina.

As três primeiras edições da Romaria da Terra foram celebradas em São Gabriel. A primeira, em 1978, na localidade de Caiboaté, e as duas seguintes, na Vila de Tiaraju. Na edição deste ano, o encontro retorna às suas origens, sendo realizado no local exato do martírio de Sepé Tiaraju: às margens da Sanga da Bica. Em 2016, completam-se 260 anos da morte de Sepé Tiaraju e de mais 1,5 mil indígenas que tombaram defendendo sua gente e sua terra das forças invasoras, convictos que estavam de que aquele punhado de chão sagrado lhes havia sido dado como um grande presente por Deus e pelo Arcanjo São Miguel, os únicos que teriam o direito de lhes ‘deserdar’ da terra em que habitavam.

Em paralelo à romaria, ocorre o Encontro do Povo Guarani, em memória dos 260 Anos do Martírio de Sepé Tiaraju e de seus 1.511 companheiros indígenas (de 5 a 9 de fevereiro), o 11º Acampamento Estadual da Juventude (nos dias 7 e 8 de fevereiro) e a Feira de Economia Solidária e Agricultura Familiar, com mostra dos produtos “Sabor da Terra” (para alimentar os milhares de romeiros e romeiras esperados), artesanato e produtos indígenas. O local dos eventos, bem como de concentração da 39ª Romaria da Terra, será o Parque das Carretas, de onde os romeiros e romeiras partem em direção à Sanga da Bica. Além disso, nesta quarta-feira, dia 3, ocorreu a partida da 10ª Bicicletada Caminhos de São Sepé, com previsão de chegada à Sanga da Bica no domingo, 7 de fevereiro, dia da morte de Sepé Tiaraju.

O que é uma Romaria da Terra?

A Terra é sagrada, é nossa Mãe. O Papa Francisco diz que ela é a nossa Casa Comum. É um bem natural que pertence a todas e todos, patrimônio de toda humanidade. Ela não foi vendida a ninguém, mas emprestada por Deus para que todos pudéssemos viver o pequeno espaço de tempo da nossa passagem pela vida terrestre. Devemos cuidar bem de nossa Casa Comum, não comprometendo sua sobrevivência e nem envenenando-a. Para lembrar tudo isso, a cada ano, desde 1978, realiza-se uma grande caminhada de fé, unindo o campo e a cidade, numa manifestação religiosa e de conscientização para a defesa, o cuidado e o compromisso com a terra e tudo o que engloba a natureza, lembrando os que lutaram e lutam pela “Terra Sem Males”.

Quem foi Sepé Tiaraju?

O Rio Grande do Sul foi evangelizado pelos jesuítas desde sua chegada em solo gaúcho, no ano de 1626. Nesta região, eles organizaram as Missões junto aos povos indígenas, que estavam sendo traficados como escravos pelos bandeirantes e espanhóis. As Missões, com suas estâncias de criação de gado, se espalhavam pela região da campanha. Os campos de São Gabriel, Lavras do Sul, Dom Pedrito, Bagé, Aceguá e Santa Margarida do Sul eram lugares por onde circulavam os povos indígenas. Em 1750, pelo Tratado de Madri, os povos missioneiros deveriam abandonar as reduções, deixando todos os seus bens para os portugueses. Diante disso, se levantaram os guaranis, liderados por Sepé Tiaraju, e se recusaram a entregar seu solo sagrado, sua “Terra Sem Males”. No dia 7 de fevereiro de 1756, Sepé Tiaraju foi morto às margens da Sanga da Bica, no território atual da cidade de São Gabriel. Três dias depois, em 10 de fevereiro, 20 quilômetros adiante, na localidade Caiboaté, foram massacrados mais 1.511 indígenas guaranis.

Por que uma romaria em São Gabriel?

São Gabriel é a terra do martírio, do sangue derramado na luta contra a ganância e a opressão, levada a cabo pela fé e pela consciência de povo organizado. São Gabriel é local sagrado para os guaranis, os povos indígenas em geral e para todos e todas que acreditam na Terra Sem Males. Em 2016, completam-se 260 anos do martírio em São Gabriel dos indígenas que habitavam os Sete Povos das Missões, a chamada República Guaranítica no Rio Grande do Sul. Para as Comunidades Eclesiais de Base do rincão gaúcho, Sepé Tiaraju é um santo-mártir. Por isso, ele é incluído nas ladainhas, devoções e cânticos entoados. O nome de Sepé Tiaraju está gravado no Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria, guardado no Panteão da Pátria (na Praça dos Três Poderes, em Brasília/DF), desde 21 de setembro de 2009.

Por Luciano Gallas / Assessoria Nacional de Comunicação, com informações da Diocese de Bagé e do jornal Voz da Terra (Comissão Pastoral da Terra/RS, edição especial, novembro de 2015)
Foto: detalhe do mural de Danúbio Gonçalves exposto no Memorial da Epopeia Riograndense, em Porto Alegre/RS

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